Saiba quem é o Empresário citado na CPI que atua como lobista na Sesau

Saiba quem é o Empresário citado na CPI que atua como lobista na Sesau

Era final de março. O ex-servidor do setor de preços da Secretaria Estadual de Saúde (Sesau) Francisvaldo Melo Paixão, se dirigia até o gabinete do então secretário da pasta, Francisco Monteiro.

Em suas mãos havia uma planilha- que deveria ser entregue a Monteiro- de equipamentos que seriam adquiridos para estruturar os hospitais do Estado no combate à covid-19.

No meio do caminho, porém, havia um empresário, que há muito tempo exerce forte influência em licitações da pasta: Erike Barbosa de Carvalho Araújo

Segundo o ex-chefe de cotação da Sesau, a proposta vencedora para compra dos itens com dispensa de licitação, estava dentro de um envelope em posse desse empresário, que atua, segundo os servidores como uma espécie de ‘lobista’ dentro da secretaria.

Erike é apontado pelos ex-servidores, como um dos principais intermediadores do processo de compra de 30 ventiladores mecânicos que estão sendo investigados por terem preços superfaturados.

A operação foi vencida por uma empresa situada em Minas Gerais, e custou aos cofres públicos mais de R$ 6,4 milhões.

O empresário é citado por ao menos três testemunhas que prestaram depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembleia Legislativa que investiga desvio de recursos na saúde pública do estado. Os depoimentos são públicos e estão disponíveis na plataforma da Assembleia Legislativa e nas redes sociais.

Um desses depoimentos de Francisvaldo Melo Paixão, ele afirma aos deputados estaduais que “o empresário Erike” também foi o responsável direto pela venda de equipamentos de uma empresa local para montagem de leitos de UTI.

“Nenhum outro empresário tinha acesso à Sesau como o Erike. Nunca tinha visto um empresário levar uma planilha de preços diretamente ao secretário”, disse durante o depoimento.

Diligência e ligação política

Erick também teria ligação direta políticos de Roraima, em busca de contratos para as emendas liberadas por eles para a Sesau e facilitando outras contratações.

O Política Macuxi não conseguiu provas sobre como funcionaria essas ligações e por isso não cita os nomes dos parlamentares ligados ao empresário. As investigações continuam.

Por conta dessas denúncias, uma diligência na Sesau de deputados estaduais que compõem a CPI da Saúde, onde encontraram 21 processos cujos indícios de irregularidades estão sendo investigados, somando quase R$ 80 milhões.

“Cabeças rolando” na Sesau

Apesar de ser um articulador influente e de ter conseguido emplacar contratos milionários a outras empresas, um fato teria irritado bastante Erique Barbosa.

Sua própria empresa, a Femax Serviço e Comércio LTDA, ficou de fora em um processo de dispensa de licitação, e servidores da Sesau teriam afirmado terem sido ameaçados.

O caso foi relatado por uma testemunha que atuava na gerência da Coordenaria Geral de Assistência Farmacêutica durante oitiva da CPI da Saúde.

“Uma colega apresentou pra gente um áudio em que ele [o empresário] citava que cabeças rolariam, que ele conversaria com o Monteiro [ex-secretário]”.

Ameaça feita e cumprida. Os servidores que não colaboraram teriam sido exonerados no dia seguinte.

Demitido por abandono de cargo

O livre acesso de Erike Barbosa nos corredores e gabinetes da Sesau, o que segundo fontes do Política Macuxi, vem de várias gestões, pode ter uma explicação.

Um pouco antes de entrar para o mundo dos negócios como empresário e lobista, ele atuava como farmacêutico lotado na própria Secretaria.

Mas o cargo efetivo e a estabilidade parecem não ter animado muito o empresário, já que em 2017 ele foi demitido após responder a um processo administrativo disciplinar (PAD) por abandono do emprego.

O empresário, então farmacêutico, ingressou com uma ação contra o Estado para receber os salários e descontos enquanto atuou como servidor público estadual, e venceu.

O Tribunal de Justiça de Roraima (TJRR) condenou, em 2018, o governo do Estado a pagar R$ 408.867,20 em precatórios a Barbosa.

Representante de classe e ingresso na política

Erike Barbosa sempre foi bastante conhecido do ramo farmacêutico. Foi o primeiro presidente do Conselho Regional de Farmácia em Roraima (CRF-RR), sendo eleito em 2009 e onde permaneceu até o final de 2011.

Nesse meio tempo o empresário chegou a tentar uma vaga de deputado estadual nas eleições de 2010, mas teve a candidatura indeferida a pedido da própria coligação.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele sequer chegou a apresentar declaração de bens, assim como não entregou nenhuma prestação de contas da campanha.

Gestor na Sesau do Amazonas

Entre 2017 e 2018, enquanto respondia a um PAD por abandono de cargo em Roraima, Erike Barbosa atuou como diretor da Central de Medicamentos da Secretaria de Saúde no Amazonas.

Em sua gestão à frente do órgão responsável pela distribuição de medicamentos aos hospitais do estado vizinho, dois casos chamaram a atenção do Ministério Público de Contas (MPC).

O primeiro seria que a Cema teria recebido de uma empresa local a entrega duplicada do mesmo lote de remédios que já havia sido recebido pela Central em 2016.

Em outro, o MPC entrou com uma representação no TCE (Tribunal de Contas do Amazonas) pedindo que instaurasse uma tomada de contas especial na Cema após a constatação de um prejuízo de R$ 4,2 milhões em medicamentos vencidos e desperdiçados.

O caso, segundo MPC, teria sido denunciado pelo próprio gestor da Central de Medicamentos, Erike Barbosa, que declarou à época ter encontrado irregularidades nos registros de controle e estoque.

Sociedade com ex-deputado Valdenir da Acta

Um pouco antes de se aventurar como gestor pela Sesau no Amazonas, o empresário Erike Barbosa teve problemas em uma sociedade com um ex-deputado por Roraima, Valdenir da Acta.

Ele, o então parlamentar e outras duas mulheres foram réus em uma ação indenizatória nº 0023023-38.2016.8.07.0003, que correu no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF).

A ação foi movida pelos empresários William Santos da Silveira e Luiz Carlos da Silveira, que teriam vendido a empresa Novamed Ltda ao ex-deputado.

Barbosa, que foi assessor do político, é quem seria o responsável pela gestão da empresa. Além das dívidas, os dois teria que pagar R$ 450 mil e a locação do imóvel.

Os antigos donos, no entanto, foram pegos de surpresa ao serem notificados por bancos e fornecedores do inadimplemento da empresa em razão do não pagamento dos aluguéis.

Os empresários teriam afirmado em juízo que jamais receberam os R$ 450 mil do ex-deputado e seus sócios e pediram mais R$715 mil em indenização para quitar as dívidas da empresa.

OUTRO LADO

A reportagem do Política Macuxi procurou o empresário Erike em suas redes sociais e em um telefone cedido por conhecidos,  mas não teve sucesso. O espaço está aberto para quaisquer observações sobre a reportagem.

Este post tem um comentário

  1. Aramis

    Na mesma reportagem o empresário aparece com dois nomes diferentes. Erick e Erique.

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